Começo pedindo desculpas pelo uso da palavra navegar. Afinal, em 2021, ninguém mais navega na internet. A gente mora aqui.

Contudo, eu precisava de um título que resumisse de modo breve e direto a proposta desta postagem. Poderia ser índice, mas ninguém leria. Dizem que o algoritmo pede títulos interessantes. Se for uma pergunta, melhor. Dizem, também, que devemos ir direto ao assunto. Ou seja, comecei errando. Desculpas, outra vez.

Agora sim. Este texto sou eu abrindo a porta do meu perfil aqui no Medium e te apresentando a casa. Por aqui, você encontra textos com temas diversos e com…


O fio de azeite escorreu sobre as fatias de pão. Letícia levou a assadeira ao forno. Leo picava tomates.

— Pimenta?

— Um pouco. Me conta do retiro?

— Foram dez dias sem falar, ler, escrever.

— Não doeu?

— Esse é o propósito. No último dia, quando podíamos enfim conversar, meu colega de quarto contou que eu gritei muito nas três primeiras noites. Eu não lembro de nada.

— Deve ter sido dolorido para ele também.

Os dois riram. Leo empurrou, com a faca, os tomates para dentro da cumbuca. Ralou o queijo, colocou azeitei, pimenta, manjericão.

— Chorei…


Sentada na varanda, puxava as folhinhas secas do manjericão. Refrescar, com cerveja, a melancolia de janeiro, pensou. E, ainda por cima, domingo.

Na sala, a gata dormia de barriga pra cima diante do ventilador, único som no ambiente. Na geladeira, duas longnecks e um vinho branco.

Ou dissolver em suor a melancolia?

Colocou uma música no celular. Adriana Calcanhoto cantou: “amarrado no mastro tapando as orelhas / eu resisti ao encanto das sereias”. Dançou, sentindo na sola dos pés o piso fresco da cozinha, uma taça de vinho na mão. Digitou a mensagem: abri um vinho branco, querem?

Estava sentada…


meu vizinho acredita na existência do vírus mas, em vez da máscara, prefere pagar uma grana num ciclo de meditação e cura do pulmão.

um novo tipo de negacionismo, bastante presente no instagram. não negam a doença mas, em vez de distanciamento, preferem proteger o campo energético com meditações de cinco mil reais o fim de semana — jantar vegano incluso. o golpe tá aí, cai quem quer, como dizia o jovem três meses atrás.

este é um dos problemas de ser da última geração que nasceu analógica: quando consigo aplicar uma gíria nova, ela já saiu de moda. usar…


Já pensou nas coisas que a gente toma como misticismo mas na verdade são um hábito bobo repassado de geração em geração? Por exemplo esse copo na janela com dois dedinhos de café.

Eu e você sabemos das abelhas. Elas vêm em bando atrás do cheiro de café nesta época do ano. Para despistar, colocamos o copo na janela e tomamos nosso café em paz. Mas se você seguir colocando, primeiro como emergência, fugindo do enxame, depois como precaução, por fim como hábito, em algum momento a gente perde o começo da história e o copo ganha um novo significado.


Feliz Ano Novo, piranha.

Finalmente, foi minha vez de desistir das tecnologias por um tempo. Vim para a casa da família passar o fim de ano e desliguei de tudo. Passei Natal e Ano Novo por aqui, sem grandes emoções, nenhuma viagem porque afinal eu ainda tenho parcelas de financiamento a pagar.

Aproveitei o clima de renovação e reli seu último e-mail. Gostei muito da frase do Leo, ele sempre me pareceu muito sensato. A vida não deixa tempo para arrependimentos, mesmo. E, falando nisso…

As últimas semanas do ano foram loucas como sempre é, festas, amigos secretos, todas as…


estou na casa de leo faz uns dias. quase não sobra tempo para escrever. muitos passeios, cinema, abraços, leo cozinhando, fazendo chás e vitaminas deliciosas.

ele tá lindo, com uma energia boa, acho que se encontrou. tá trabalhando de garçom e fazendo freelas de tradução, juntando dinheiro para ir para a índia. vai estudar yoga.

disse uma coisa bonita, sabe? falávamos sobre essa escolha dele, deixar a vida segura, o concurso, a família. perguntei se no futuro isso não vai doer, sei lá, uma hora faz falta uma casinha, um sofá confortável, um canto para sossegar.

ele falou: você tem…


No começo do ano, no caminho para uma cachoeira, encontramos seu Zé Pedro sentado diante da roda d’água. Ele sorriu, parecia uma entidade. Nós seguimos a trilha.

Na volta, estava ele lá, bengala apoiada no banco e um companheiro de cada lado, papeando. Compramos doce de leite, pimenta e pastel. Antes de entrar no carro, voltei correndo. Pedi para tirar uma foto, ele assentiu com sorriso e aceno de cabeça. Comentei com quem me acompanhava: um dia quero voltar para ouvir as histórias desse homem. Atrás dele, água caindo e a roda girando.

Hoje, agorinha, ainda sem saber muito da…


Um dos rapazes pousou o cigarro atrás da orelha, esfregou as palmas das mãos, pegou o taco que havia apoiado nas costas duma cadeira e inclinou o corpo sobre a mesa, mirando o alvo. A bola vermelha rolou vagarosa e tocou a verde, que não se moveu. O outro homem balançou a cabeça e se posicionou para uma tacada brusca, mandando para longe as duas bolas e acertando outras três. Ela assistia ao movimento sobre o pano verde. Copo de cerveja numa mão, a outra dançando no ar com o balanço do corpo.

Quando reconheceu as batidas da introdução, ergue…


Não fiz o ménage e acabei virando confidente da moça, acredita?

O casal é novo na cidade, acho que já contei essa parte. Alice faz apresentações de tecido acrobático, uns freelas, o que eu acho super sexy, mas é bióloga. Estava trabalhando na área, gostava do emprego e então Davi recebeu uma proposta para um novo cargo. Ela topou acompanhá-lo e agora está em crise, com a sensação de ter abandonado a própria vida. Não sei o que dizer sobre isso. Tenho oferecidos cafés, chás e conversas.

É instigante observar como as coisas são mais profundas do que aparentam. Quando…

Carolina Bataier

Este espaço é meu laboratório de texto. Meu livro: https://amzn.to/2Wq2wRi. (carolbataier@gmail.com)

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