Escreva na cozinha, se tranque no banheiro

Carolina Bataier
3 min readApr 26, 2023

Em breve, publicarei meu segundo livro. Desta vez, de poemas.

Quando contei isso no Instagram, recebi algumas mensagens de mulheres interessadas em dar os primeiros passos no caminho da escrita. A maior parte delas, mães. “Tenho desejo de escrever, mas não sei por onde começar”, diziam.

Numa situação hipotética, a escritora Virgínia Woolf (1882–1941) poderia orientar: busque um espaço silencioso, cercado de livros inspiradores e garanta por ali algumas horas de silêncio.

Essas seriam as condições ideias, de fato.

Que mulher não deseja um teto todo seu, contas pagas e tempo para escrever?

Mas nós vivemos no Brasil de 2023, onde as mulheres ainda são, majoritariamente, as responsáveis pelos cuidados do lar e dos filhos. Muitas acumulam funções dentro e fora de casa. Nessas condições, como garantir um ambiente favorável à escrita? A resposta vem nas palavras da poeta, escritora e teórica cultural Gloria Anzaldúa:

(…) escreva na cozinha, se tranque no banheiro. Escreva no ônibus ou na fila da assistência social, no trabalho ou entre as refeições, entre o sono e a caminhada. Eu escrevo sentada na privada. Nada de trechos longos na máquina de escrever, a não ser que você seja abastada ou tenha um mecenas — talvez você nem tenha uma máquina de escrever. Enquanto varre o chão ou lava as roupas, ouça a cantoria das palavras no seu corpo.

O mais importante é escrever, pouco importam o lugar e os meios. A mensagem está no texto Falando em línguas: uma carta para mulheres escritoras do terceiro mundo, dentro do livro A vulva é uma ferida aberta & outros ensaios (2021), publicado em linda edição de A Bolha Editora, com tradução de tatiana nascimento (assim, em minúscula, como ela assina).

Temo que, ao lançar na rede essas palavras de Gloria, elas soem como autoajuda. Por favor, não levem para esse lado. A mensagem da autora passa longe da superficialidade destes nossos tempos, onde gurus ignoram as estruturas de poder e dizem: se você quer, você pode, basta se esforçar. Ela fala às mulheres, sobretudo às do sul global e principalmente para as não brancas: escrevam, porque o mundo precisa da voz de vocês. E porque nossos corpos precisam desaguar em palavras.

Não por acaso, Gloria inicia o parágrafo transcrito acima com a frase Esqueça o teto todo seu. Eu compreendo as boas intenções da Virgínia, mas meu livro foi escrito às pressas, durante as sonecas da minha filha. Alguns poemas foram digitados no bloco de notas do celular, nas exaustivas noites do puerpério. Se esperasse as condições ideias para a escrita, não escreveria nunca.

É curioso como passei anos adiando este segundo livro e, no momento de maior cansaço da minha vida até então, as palavras dominaram meu corpo. Com uma criança recém-nascida nos braços e os seios doloridos, eu não poderia fazer outra coisa senão escrever.

Quantos poemas não são pensados nas noites insones, nas filas de espera do pediatra, durante as dores dos primeiros dias de amamentação? Gloria sabe e nós também sabemos o poder das palavras ditas e o quanto elas podem nos unir, fortalecer e curar.

“Escrever é perigoso porque temos medo do que a escrita revela: os medos, as raivas, as forças de uma mulher sob pressão tripla ou quádrupla. Mesmo assim, é na escrita que nossa sobrevivência se encontra, porque uma mulher que escreve tem poder. E uma mulher com poder é temida”, nos alerta em outro trecho da carta.

Eu fui em busca desse livro depois de ler um trecho dele — esse que destaco na imagem — em um curso de crítica literária feita por mulheres. A carta para escritoras mulheres do terceiro mundo traz a resposta para as mulheres que me procuraram.

Se você pensa em escrever, você já começou. Agora, é só colocar as palavras no caderninho que você carrega na mochila, no corpo do e-mail, na janela do Whatsapp, no Word, no bloco de notas do celular. Onde e quando for possível, faça da sua escrita uma prioridade, porque ela é o seu grito. Como a autora orienta: tenha medo de escrever, mas mais ainda de não escrever.

Escrevendo nossas dores e prazeres podemos libertar nossos corpos e construir o caminho para um dia celebrarmos o teto todo nosso.

*

Publiquei esse texto no substack. Iniciei por lá uma nova fase da minha newsletter. Convido você a me acompanhar por lá clicando aqui.

--

--