ser adulto é viver juntando os cacos

Carolina Bataier
2 min readAug 4

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publiquei outro livro e ele fala sobre as minhas avós. eu sempre volto a elas. cecília já tem dentes e eu ainda não me acostumei a chamá-la de filha. viajar 900 quilômetros de carro com um bebê exige habilidades de canto e improviso. esqueci em casa a mala da cecília, precisamos comprar fraldas num posto de gasolina. ainda não me senti uma péssima mãe — desta vez foi por muito pouco. nunca confie num anúncio de lanchonete de beira de estrada dizendo nossa confeitaria é premiada. talvez o prêmio seja na categoria confeitarias de beira de estrada do estado de goiás. desconfie do seu paladar quando estiver triste. poucas coisas são mais angustiantes do que a sala de espera de uma UTI. minha tia chegou tarde do trabalho e achou importante aguar as flores. esqueceu a torneira ligada até a manhã seguinte, as plantas ficaram felizes. toda manhã, um beija-flor rodeia a varanda. as galinhas também, o dia todo. os gatos me olham e pedem comida. minha filha comeu uma folha seca. tentamos não nos desesperar. rimos. filipe esqueceu a água do café no fogo até evaporar. toda vez que estou triste, me sinto no corredor de um transatlântico ou suspensa numa bolha flutuando pela sala num fim de tarde, como escreveu caio fernando em sem ana, blues. acordei pensando em comprar um pequeno oratório e encher de fotos e velas. as pessoas dizem que agosto é um mês terrível. minha mãe fala que gosta. pra ela, sempre foi um mês de mudanças. para mim, tem sido as duas coisas. alguém escreveu: ser adulto é viver juntando cacos. apesar de tudo, eu sigo esperando uma notícia boa.

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